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Aqui a poesia é amadora. A música e a fotografia, amadoras. Tudo dentro deste peito é amador.

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segunda-feira, 24 de novembro de 2025

24.11.25

 


Eu gostaria de me dar um verso de aniversário. Mas depois decidi juntar uns trecos, trechos, essa carta e cacos brilhantes. Eu realmente preciso me agradecer, eu não sei o que teria sido sem uma ousadia timida e tão mansa que nem eu dava muito por ela. Que eu jamais me engane novamente sobre isso.


Espiei em cada caco meu espatifado, minha imagem inteira. É impossível partir a essência. O mundo tentou, mas eu aprendi a brincar com ele. Era apenas uma criança ferida. Ele só precisava de inocência. Inocência e ousadia. O que era caco virou espelho d'água. 


Eu não sei o que seria se não tivesse sido assim, nessa constelação, na inquietação pacífica e inconformismo. 


Quando menina eu gostava de grudar na minha avó, mas eu era inquieta e volta e meia ela me mandava (certa ela) voltar pra minha casa. E eu dizia: só por desaforo eu vou lá outra vez. Pra ela, a autenticidade dela, a firmeza dela, a doçura dela. Ela me lembrava do que não pode morrer. 



Dessa vez, por desaforo, eu voltei pra mim.


domingo, 12 de outubro de 2025

Sobre dozes de outubro, coragem e botões




 De certo fui eu que perdi a Kodak Instamatic Flash Cube de botão disparador laranja, essa foto aí foi tirada com ela, como todas as outras da infância. O flash parecia um cubo de gelo, a brecha perfeita para brincar. Já procurei em tantos lugares uma igual... Nada. 


De repente me veio que o que eu buscava mesmo era o botão laranja. A falta do flash que se perdeu primeiro só deixou as imagens mais bonitas. Porque é isso que procuramos depois que crescemos, o botão laranja da inocência corajosa: vai, pode ir, é seguro ser você sem artifícios, é seguro sorrir, 1, 2, 3, xis e click


Entendi que não precisamos mais sentir culpa por aceitar a severidade em lugares onde ela não cabia, que o botão laranja agora é dentro, a coragem alegre de ser a imagem fiel da espontaneidade. 


A severidade é prática, mas para os dentes, não escova pra ver! É boa para atravessar uma rua, para não brincar com facas afiadas ou com os sentimentos do outro. Pode ser boa para antes de algumas escolhas. Em outras, já nem se parecem com escolhas, são sorrisinhos mornos bem dentro, lugar comum que só se atravessa. 


Botões laranjas servem para quando nos esquecemos de atravessar. 


Na foto, o Opala do meu pai (que adoeci quando foi vendido e estrela da foto?), a ladeirinha de paralelepípedo da casa da minha avó materna em Itatiba (linda cidade), a Flamboyant que ainda não havia florido e eu florida de mim. Click.

sábado, 12 de outubro de 2019

Uma forma de lembrar de você


Hoje à tarde, acompanhei minha mãe ao médico, na volta, depois de furtamos umas mudas de plantas sobrando pelos muros, passamos por um Sebo e logo pensei em você, Wend. 

Entramos. Dezenas de estantes altas e cheias. Falei gesticulando largamente com os braços: ele deve ter todos eles, mãe. Minha mãe riu e fez aquela cara de “os amigos da minha filha”, sabe? Depois de vasculhar bastante, e confesso, bastante perdida, fui para a letra A de Adélia, o que era você virou eu, ou para mim, mas que era você. Nada de Adélia. Nenhum. Tristeza. Pressa e cansaço da mãe, 32 graus em São Paulo, seguimos sem livros. Combinei comigo de visitar um outro lugar guardado nas minhas vontades, lá haveria de ter uma poesia pra você. Mas ali mesmo no caminho, encontrei algumas. 


Tinha uma calçada arrodeada de flores amarelas caídas de um ipê já pelado, ninguém que andava por ali pisou. Ninguém. Foi tão bonito ver as pessoas se desviando para não pisar nas flores, que eu quis trazer esta calçada pra você. E parecia que o ipê me piscava exclamado: Grande! Passou até a canseira da mãe, ela ama flores e incentivamos a parada, de pelo menos, umas seis pessoas para admirar o espetáculo. Burburinhos e fofocas doces sobre a primavera… Já quase chegando em casa, a mãe pergunta: e que você vai dar pro seu amigo? - aquela calçada, mãe. - Deus do céu, fia! É cada uma!



P.S.: Quando chego em casa, aquela sua carta. Eu brigo com o mundo, mas fico sem graça. Tenho jeito pra ingratidão não. 

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Aceitando iscas

Faz um tempo, peguei mania de gravar áudios das minhas poesias favoritas e enviar para alguns amigos, acabei perdendo a mania, por desgosto. Até os poetas estavam xingando, muito. Comecei a xingar também. Alguns palavrões eu nem nunca tinha xingado. A Lu, a Recieri, acabou por me empolgar de novo, mas pelos contos poéticos. Ela me envia muitos, ela não desistiu, nem o Wend, o Wendel. Hoje ouvi alguns que ela enviou assim que acordei. Fiquei maravilhada. Levantei como quem fosse pra guerra e fui direto no Rubem Alves na estante. Gravei alguns contos e mandei para os dois. Fiquei imaginando, boba, eles ouvindo com fone de ouvido no ônibus, árvores nos canteiros das avenidas passando como filmes nas janelas... O Wend, ouviu na hora e já respondeu, foi a fome. A Lu, tava fora de área mas eu sei que anda sempre testando ingredientes, fome. Estou impressionada, e não é algo novo, como essas pessoas da poesia aguam a nossa alma e nos estimulam brotos novos, tão competentemente. Infelizmente o bruto se sobrepõe ao belo neste mundo. Mas não fossem esses doces salvamentos, nem o bruto teria mais poesia para brigar.





Fotografia | minha, quintal de casa, Bougainvillea.




sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Fuga sem piano


N
ão sabia fazer coisa melhor na vida que fugir. Era a minha especialidade. O resto, ensaio.                                                                           
A primeira vez que quase completei uma fuga, deveria ter pouco mais de um ano de vida ainda. Após isso, só aperfeiçoei o crime. Contam em quase toda pequena reunião de Natal, que minha mãe lavava roupa no quintal, em frente à casa em que morávamos havia uma oficina mecânica, algumas casas de aparência desabitada, horizonte periférico e uma ponte. O chão de terra batida era tão seco que parecia areia. De uma outra oportunidade, minha madrinha havia me ensinado a jogar pedrinhas no rio que dava sentido a essa ponte, madrinha esta, que dividia comigo o nascimento sob a mesma lunática constelação avoada. Doida de pedra, pedra preciosa. Engatinhando resoluta, capacete de crochê branco e com o tão simples propósito de atirar pedrinhas na água, eu fui, sozinha e sem a mãe perceber, escrevendo com os joelhos na areia o restante dos meus anos. Desconfio do efeito em mim, das formas hipnóticas dos arcos aquáticos que engrandeciam e sumiam tão logo a pedrinha desaparecia na modesta profundidade daquelas águas. Minha mãe, pobre coitada, no trabalho pesado de esfregar e torcer as roupas, se distraiu o suficiente que era pouco. - Dona, Dona, sua filha está indo pra ponte! - era o moço da mecânica, apavorado. Corre corre e gritaria, eu já estava debruçada em meio pequeníssimo corpo para fora da ponte. Sem pedras. Uma mão firme e materna por debaixo de mim me alçou, nunca antes eu havia presenciado tanta gente junta e fiquei enjoada. Bendito moço da mecânica. Meu anjo da guarda ganhou o primeiro calo na asa.
Teve um guri na escola, ali eu já tinha uns 12 anos. Calado, sardento e bastante sozinho, talentoso em colorir os muros que cercavam a quadra de futebol. Quermesse da igreja e eu recebo um "correio elegante" dizendo: te espero perto da barraca "tal", um beijo, Daniel. Eu fugi para o outro lado, eu gostava dele, de um jeito parecido com o das cirandas nas águas, mas mais bonito. A gente aprende com a gritaria, que as coisas bonitas ferem. Ele não me procurou, como covarde eu esperava que fizesse, não era mesmo o seu estilo. Chorei o que pude na esquina da minha casa, o restante guardei. Primeira fuga concluída com sucesso, e eu já estava muito bem aparelhada para conceber Chopin.
Alguns anos mais e Chico Science morreu, ouvimos a notícia no rádio do boteco, jovem e brilhante, chorei no banheiro pra ninguém ver. Na parede, o sorriso dele no interruptor de energia. Fugi de lá.
Teve um cara depois, teve uma situação a seguir, outras coisas, todas acirandadas, cintilantes.
Volto pra casa e escrevo sobre tudo. Agarro o magnífico com todos os erres e esses, exclamações e olhares. E me dá mesmo a sensação de que nunca terminaram depois que eu saí.

Dzieje się.

domingo, 19 de novembro de 2017

O abraço







Hoje acordei tão sobrando 
que inventei abraços. 
Uma falta sua que sempre esteve aqui. 
E estas sobras todas 
que são excessos do que não te vivi.
Criei estradas e tantas asas,
que não fossem os pássaros tão ariscos,
as flores que te penso tão azuis,
ou teus olhos negríssimos;
teria eu ameaçado pouso
em tua pele colorida?






quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Sobre meninos



Há um único momento, talvez dois no máximo, dentro de uma vida inteira em que sentimos o flutuar dos próprios pés contra a nossa fragilidade de ser grande. Já não voamos mais. Tem esse garotinho sentado na calçada e que brinca sozinho, sua solidão é tão dedicada e mesmo assim, curiosa, me aproximo e o chamo de meu doce. Ele ergue a cabeça contendo dois grandes olhos brilhantes e castanhos desconcentrados em mim, e diz, com a voz propositadamente engrossada de homem: meu nome é Murilo. Porque há este outro grande momento em não ser de ninguém e que é dele. Entre os galhos e folhas secas de árvore, uma única flor amarela de Ipê comandava seu grande exército imaginário.



fotografia | Zi



quinta-feira, 6 de abril de 2017

A ti











Pudesse ser que fosse apenas um outro dia em que um afunilado raio de luz se atreveu e nos alcançou tão longe que somos. E toda a mornidão que cobriu os nossos pés e avançou pelo nosso corpo nos amedrontando de claridade, fosse apenas uma gripe. Pois que não penso acordar os últimos pássaros que vieram e pousaram sempre tão breves. É dentro do teu abraço que o vento é mais mais forte e sem entrega. Meus cabelos caem voando e as asas dos pássaros desfiam azuis. Pudesse ser que eu imaginasse. Precisamente, amanhã acabou.






domingo, 5 de junho de 2016

é algo como isso e fim

Escrever é quase medo.
Não ficar.
Canto algum.
Um lugar. Lar. 
Pocilga.
Flor. 
Escrever é um não perdoar para perdoar. 
Um confronto. 
Faca. É o fundo.
Sofrer de cor, de palidez.
Absolvição. 
É um bode colorido. 
Perdoável.
È um bode. É Chagall. 
É para os grandes.
É a esquina, o boteco, chão, teto, é teto e chão.
É solitário.
Sagrado.
Não mete-se. 
É sério, piada.
É o copo. 
É a taça. 
O meio vazio.
É o cheio.
Escrever é depois. 
Não eu. 
É Machado.
É antes do possível.
A página no lixo embolada.
É o peito líquido.
Fatiado peito.
É a vela. A veia.
Alforria. 
Alegria. Embriaguez. 
É lama. 
Chão. 
É Dalí e Dumont.
As estrelas de Bilac.
É quase fim.
É quase.
E eu não gosto do som elétrico desta palavra.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Notícias amarelas, é maio ainda

Mari, 


quando as vi amarelas, tão rosas e escancaradas no jardim, lembrei do Chico e depois de você. “Era você além das outras três”. É como se fosse uma letra de Chico cantada pela Mercedes Sosa, sabe? Acho que acabei fazendo as pazes com a terra depois de tanto tempo sobrevoando. E este escândalo, talvez, foi a maneira que elas encontraram de me dizer que “tudo bem”. Andei errando a mão e o verbo, mas foi bom ter para onde voltar… Gracias. Dias desses meus pais estiveram aqui em casa. Pegamos nós três na lida da terra e depois de tudo muito limpo, meu pai sacudiu o tronco da primavera que ainda tinha muitas flores de cor maravilha prestes a se desprender e caíram na terra varrida. Minha mãe fez pose se açucareiro e riu da besteira que tinha explicação. “Agora ficou bonito”. Pensei em indicá-lo a um editor amigo meu, pela poesia improvisada. Ele “se sentiu”. Então eu percebi que de dark, maio não teve nada. Não é bonita a maneira como as pessoas inventam de consolar a gente? Meu pai é um capricorniano fazedor de contas assumido. E ele acabou por fazer poesia da mesma forma que conta piadas sem verificar se a gente está quase rindo, já rindo ou se vai rir. Pensei que ele ainda tinha algo a me ensinar. Ele riu de canto a canto. E fiquei mais feliz por ele ter ficado feliz, sem me dar conta, de momento, que ele pensou o mesmo. “O pai, às vezes, dá uma dentro, né fia?” Ô, Mari, me diz se a gente aguenta? A vida não é mesmo igualzinha como o Guimarães escreveu?
P.S.: Hoje é aniversário da Tallita. Fiz toda sorte de molecagem com ela e falei de você, que lembrou bem dela. Quando ela disser algo bonito, porque vai, eu te conto.




Fotografia | minha, do jardim limpo com flores de primavera caídas


sexta-feira, 13 de maio de 2016

Sobre uma carta chegada pelo correio em estado, raríssimo, de papel e tinta


Estranhamente, caminhei devagar para o quintal com árvore para ler debaixo. O abacateiro estava cheio de florezinhas. Na época, eu contava em meses a gestação dos grandes frutos fortes em cada cacho lotado de branco e verde-claro. Aquele nascimento tinha cheiro, ainda mais aroma. "Tallita faz guacamole". De primeiro, gostei do modo como as linhas de Tallita desciam quando alcançavam o final da folha e, depois, como subiam de volta nas linhas debaixo e quase encostavam nas outras. Foi a primeira vez que tive sonhos marujos. Ela tinha uma letra que enrolava os érres como caracóis na língua, e escorregava suave nos finais dos êmes. Ela falava por plurais. Gatos. Folhas. Flores. Sombras. Plantas. Pinturas. Por vezes, saltava algum singular à vista, era porque eu havia sido injusta na falta que eu sentia dela. Eu exigi Tallita, como quem exige os direitos humanos em praça pública, embora muda, mas aos berros. Entender coisas de mundo foi complicado para ambas. Recuar é o estado defensivo e sem frestas que encontramos, em nosso caso, a favor do mundo. Mas, ecoei ainda assim, embora igual a ela, dentro da sacralidade que é a solidão de um indivíduo. Levei uma bronca de nuvem. Da que passa, volta outra, a mesma, faz sombra e deixa o sol se exibir, delicadamente transparente. Tallita tem extensão de rio seguindo o seu nome. E fluviava. Antes dessa amizade, eu só havia batido o pé por um relógio de pulso, lá na infância. Foi a única birra da vida. Muito mais tarde, na juventude, um doutor chinês, após me conceder o atestado do dia por tensão muscular crônica causada por ansiedade, fez a receita: abandonar relógio (até hoje o ouço com sotaque). Era o mesmo relógio. Como são os mesmos, os palpites musicais que Tallita me manda de tempos em tempos. Ser lembrada é melhor do que ser frequentada, resumo.

Dia desses, sabendo de uma grande tristeza minha, ela ligou.

Fim.

SP-RE





sábado, 16 de abril de 2016

Carta solitária (sobre o tempo)

Hoje esquentou demais. O asfalto vaporizou todos aqueles coloridos falsos de embrulhos de bala e maços de Marlboro abandonados. Entonteci. Eram 3 da tarde e eu consegui catar uma folha seca no chão, eu me lembro. Era tão bonita que eu trouxe pra casa e pensei em enquadrá-la. É possível que eu faça. Porque, além do vapor bonito enturvando o horizonte, o encontro de um outono que ainda não veio, me comoveu. Lembrei da Adélia, a Prado. Ela escreveu algo sobre guardar coisas lindas n'algum canto pra poder abrir depois e reviver a emoção. Algo assim. Não vou procurar o escrito na íntegra, quero que fique assim, malacabado na lembrança, só sentido, e inacabado como Picasso gostava de falar sobre suas telas. Acabar é acabar. E não é por isto que escrevo hoje. Acho que acordei continuando, sabe? Há dias que a gente acorda assim… Houve também uma fotografia que usei para a capa de um livro. Outonal? Invernal? Foi tão bom criar com coisas continuadas. Me deu ânimo, gás. Gosto de fotógrafos que me deixam pensar. E a artista é tão jovem! Lembrei daquele diretor francês precocemente brilhante, o Dolan. Eu fico a Deus dará no mundo de alegria quando encontro coisas assim, coisas carentes de serem remexidas sem que sequer mova-se nada. Foi uma semana de tensão nos ombros, mas de espreguiçamento de alma. E sobreviver? Também é poesia? O gato da vizinha sobreviveu a um envenenamento proposital de humano. Foi outra tensão. Mas, quando o dia nasce continuando, o que é que consegue acabar?





A imagem tal da capa, que é da artista Alice Heck


terça-feira, 29 de março de 2016

Fastio

Dormir pouco.
Acordar cedo.
Trabalhar muito.
Não ganhar o suficiente.
Acreditar. Desacreditar.
Escrever e apagar.
Fingir que não percebeu.
Se fazer de bobo.
Relevar.
Meditar.
Acreditar de novo.
Seguir.
Ter ideias.
A poesia abranda. 

Desviar do tapa.
De graça.
Pirraça.

Plantar uma árvore no chão do planeta que não tem outonos.




terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Carta atrasada a Bernardo Oliveira, ou como dizemos, a quem interessar possa.

“Como assim você sofre de atrasos?”
E, todos os verbos se enfileiraram, expectados, aos pés do meu vazio de explicar. Ele também.
Depois de algum silêncio, (por que eu ainda não deixo que o silêncio exista?), arrisco, agora que tudo é, eu não sou mais. E isto é sempre.
Ele suspira como quem tenta entender se há muito tempo dentro de pouco espaço ou o contrário. Há muito dele em ser agora e pouco eu sendo. “Isto não é atraso, mas uma espécie de adiantamento com atrasos no final.” É quase confortável pensar que ele tenha certa razão, confesso. Não demora e eu aponto o imenso dicionário naufragado na estante e inflexiono uma cara de “para quê?”. São tantas as palavras e, nenhuma, de fato, serve. Uma ou outra apertam demais. Algumas pinicam de forma que só saindo delas. Mas as piores são as que não consigo estar. São enormes. Procuro o buraco das mãos, da cabeça, caber justo, não acontece. Mas penso em árvore e fico nela por muito tempo.
Então digo, e não sei depois de quanto tempo…
Contam que, Vincent van Gogh, ao ser questionado sobre certa maluquice em pintar árvores tão altas que iam além das estrelas, estas, que estão a milhões de anos-luz das árvores, um absurdo, sorrindo respondeu que as árvores são o anseio da terra para transcender as estrelas. “Estou pintando anseios, não as árvores.” Seria este o meu atraso em relação ao chão? Do que é, em relação ao que queria que fosse e que, arquitetonicamente, e tão ainda mais inconsciente é buscado, como com os arranha-céus?
Ele sacode a cabeça confuso, e com uma paciência paternal, reabastece nossos copos e me diz, muito amorosamente: “Você nunca se foi de fato, embora se lance o tempo todo. E muito emboramente esteja sem estar". Ele ri do “emboramente”, já sabendo que eu ia gostar.




Ah, se eu não fosse tão atrasada de adiantamentos… Tentei me fazer alcançar mas eu era longe. Eu juro.





domingo, 17 de janeiro de 2016

À Halina Olhier

Carta à Halina Olhier


Queria ter te escrito um poema. Uma poesia. Mas perdoe-me a intimidade, sinto um espaço fluído entre nós, quase deslizante. É raro sentir isso, pois que optei por uma carta. Além do recesso – espero – temporário de inspiração.

É provável que aqui você encontre espectros de poesia ou halos enormes de reconhecimento e consideração, o que por si só já é poesia, mas a palavra, esta flui sempre como uma conversa debaixo de árvore. E temos entre nós, um respeitável momento de silêncio. Mais pra frente quero te contar sobre o silêncio. Outra coisa rara.

Tenho sentido um sufoco enorme. Por abraçar tanto as pessoas, todas, quase perdi o dom dos braços. E é sempre bom ter com quem sofre tão nuvem, tão brisa, tão vento que não sufoca. Seu ego não veste botas, mas asas. E só é assim, por sua puríssima honestidade. Outra coisa rara. Honestidade esta, sem desespero, apesar dos pesares. É como se você respeitasse o sofrer do outro sem saber do que se trata e nem se se trata maior que o seu. Sabe o quão grande é isso? É enorme.

Bukowski já havia dito que as pessoas o esvaziavam. Senti esvair de mim, a mim. Mesmo segurando o peito, derramei. Sei lá onde fui parar… Por isto, inventei bifurcações. Era preciso partir sem fazer o caminho contrário, sabe? Só ir sem desprezo, mas com algum desencantamento. Há tanto desespero no mundo, Halina, tanto! Que eu não podia mais ser cúmplice de aflições estendidas e engessadas e escolhidas. Daí eu vejo você lutando. E é tão bonito! Sabe-se lá, Halina, de você… Sabe-se lá! Mas você escolhe ler, você escolhe encher a tua vida de arte e de glória. Você escolhe amar. Todas as dúzias de pássaros que imagino te voam. E te dançam e te agradecem. Você poderia ter escolhido nos desesperar a todos ou nos fazer conformar com tudo, mas não.


Sobre o silêncio, me perdoe a ausência da bibliografia, eu leio demais. Leio, de placas publicitárias a serviços de compra de ouro e prata e implante dentário. Mas, sobre o que eu gostaria de te contar sobre o silêncio, diz respeito ao pensamento. É o que ficou em mim, basicamente. Penrose, o físico, caminhava com algumas pessoas pela rua. E é claro que iam dissertando sobre muitas coisas, como todos fazemos em conjunto. Em dado momento, precisaram atravessar a rua e então fizeram aquele silêncio característico que fazemos ao atravessar uma rua. Foi ali, exatamente ali, que ele concebeu a teoria dos buracos negros. Num pequeno momento de silêncio. Mas, retomado o “conversê”, ele se esqueceu do que havia pensado. E só retomou o seu pensamento, momentos mais tarde, ao se lembrar do silêncio que fazemos ao atravessar uma rua. 


Halina, agradeço pelos momentos de compreensão silenciosa dos meus momentos de confusão e os hiatos, sem nenhuma cobrança destes novos tempos. Momentos meus, que são em verdade e puramente, nada mais que, cabeça na lua. 
Acredito que nesses momentos, estamos parindo algo muito importante. 



Um abraço muito apertado, foi bom demais te conhecer, 



Zi.







terça-feira, 12 de janeiro de 2016

À Mariana Gouveia

Mari,

me perdoe a demora, caí em 2016 um tanto perdida. A vida é uma tontura só. 


Conforme a sua teoria, há poucas coisas que não mudarei em nada pro's lados de cá: o alecrim vingou, a roseira amarela deu três rosas grandes de uma só vez e escancarei, fotografei um sol cor-de-rosa. 



Mas um dia teu nome amanheceu triste em Minas Gerais. Pra depois entardecer sagrado. Eu conto. Separei roupas e utensílios para doação, surpresa foi que me impediram de enviar, pois as doações já tinham sido tantas, mas tantas, mas tantas mesmo! Não é bonito? Então, decidi botar cortina em todos os cantos da casa e meus. Quero ver o vento dançar comigo como dança com as folhas soltas no quintal. Quero arejar, porque esvaziar eu fiz demais. Você sabia, Mari, que alguns físicos dizem que tempo e espaço é tudo a mesma coisa? Pois é. 

Achei engraçado porque a mim serviu justo. Eu não a vejo, Mari, há 1,329 km em linha reta. Porque tempo, não se mede mais entre nós.





E foi bom 2016 começar em Ana. Foi sim. 



Te amo, feliz ano inteiro.




Para você um sol com pétalas, lá de Aparecida do Norte.



sábado, 19 de dezembro de 2015

Carta à Tallita Fluvial


Talls,



hoje quando acordei, tinha uma tirinha de sol escorrendo por uma fresta tão justa na janela que deu dó de não escancarar. Mas eu me aguentei. Era cedo demais pra acordar e tarde pra despertar. Deixei aquela tirinha brincar comigo um pouco na cama. Foi uma das primeiras vezes que acordei quieta. É. Eu acordo e já começo a pensar, fico na cama uns minutos até o mundo assentar de vez no que era sonho, mexendo no cabelo, cutucando a cutícula, criando uns filmes na cabeça. Mas dessa vez não, fiquei quieta. Era tão bonita aquela tirinha dourada tremulando vagarosa no lençol, nos pés, no joelho, que eu aquietei. Foi um único momento de genuína paz em meses. Aquele pequeno corredorzinho purpurinado. Essa cidade é hard core demais. As pessoas já não tem mais árvore dentro de si. Acabou. Esses dias assisti Boyhood. Deveria ter visto antes. Sério. Em um momento é discutida a existência da dimensão intermediária. Eu falo com alguém que ao mesmo tempo me “ouve” e checa suas mensagens no celular, e em todas as possibilidades onde hoje é possível receber uma mensagem. Me ouve e lê, me ouve e lê. No final das contas ele não sabe dizer de nós, nem de mim e nem da outra pessoa, porque não estava presente com nenhuma das duas, efetivamente. E é triste não conhecer uma pessoa que te quer bem. Precisei deixar algumas destas pessoas para trás, Talls. É doloroso, mas eu não poderia servir a este propósito. Você entende. A poesia do mundo já está quase acabando. É preciso mesmo fazer o caminho contrário como o mocinho do filme fez, ir de encontro a arte dele, sair da dimensão intermediária. E não faz mal se a gente se entregar às vezes. Reavivar, todos os dias, a graça contida nas coisas é árduo bem como sublime, igualmente.

Ganhei muitos livros neste aniversário. Até um Neruda enorme! Fiquei exclamada. O costume de presentear está se esvaindo como a poesia. Cada vez que, raramente, ganho alguma coisa, me lembro de você. Que bondade! Que doçura nas mãos. A fazedora mais doce de embrulhos e objetos de adoração! Estou lendo, de um dos livros ganhados, um conto de Rachel de Queiroz chamado Tangerine-Girl. Não é bonito este título? Quis ouvir Tangerine do Led Zeppelin imediatamente, o conto é lindo. Vou transcrevê-lo pra você.



Me mande sempre notícias, tá bem? Recolha-se à sua concha quando preciso, porque eu sei que é preciso, você é uma pérola! Mas não desapareça. Sua poesia areja o sufoco cinza que paira sobre essa cidade. E não se esqueça, o caos é fora, é fora, é fora. Um dia a gente se vê por aí, nem que seja no meio do caminho. Nem que o meio do caminho seja a Itália, seja Portugal ou Piraporinha do Bom Jesus.


             


              Feliz Natal. Feliz 2016.

Tudo vai dar pé.



Te amo.


Zi


domingo, 22 de novembro de 2015

Bar

(...)

Pude ouvir todos os passos no piso amadeirado daquele lugar. Pegadas apressadas, conformadas, nervosas, salto, bota. Escorregões. Desmaios. Desfalecimentos. Alegrias. Esbarrões marcados nas paredes, se desfazendo cansadas nas pontas dos meus cotovelos. Todos os corações. Batendo, tanto. Tantos poemas... Tantas pessoas… E, tanta fumaça que, meus passos se esqueceram das próprias pegadas. Alguns cento e cinquenta e sete anos contados em metros, de um silêncio que se abria em agressiva cintilação. Nos espelhos, portas e balões de ar, ele esperava que ela o amasse, ela esperava que ele a amasse. Uma outra. Um outro. Qualquer outro amor esperando o amor de quem estava à espera... Feridos. Escombros. Quem se encontrou. Nenhuma vítima. Coloco as mãos no bolso do casaco. É embaraçoso sentir tanto. 











quinta-feira, 19 de novembro de 2015

O fim


(...)

Fisicamente covarde, não havia indícios de que mudaria a cor dos cabelos ou amputasse o alongado dos fios, como se precisasse, sempre e imaginariamente, desembaraçar a tudo. E desembaraçou-o, o homem, como quem salva um pássaro da linha cortante e imaginária de uma pipa criada para a liberdade do vento e as possibilidades do céu.






A ilustração acima é do mágico Troche.

sábado, 24 de outubro de 2015

Não se aprende a "adoecer" assim.



Sinto. Sentir. Sentimento.
Apalpo o imaginado, como contorno sem um meio. Basta?
Abasta.
Quem poderia dizer a não ser eu?
Quem poderia?
Quem?
Se na poesia, que tem você a ver com o fato de que te amo e você não me ama?

Nada.


" Neste ponto, eu sentei na parede, eu... Eu sentei no chão e escutei, foi tudo o que eu fiz, só escutei: 
- Não seja tão insensível.

Eu nunca, nunca fui tão insultado, tão insultado em toda a minha vida, em toda minha vida."
"

Trecho do livro em composição, por um esquizofrênico.
Filme: Maladies
Diretor: Carter