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Aqui a poesia é amadora. A música e a fotografia, amadoras. Tudo dentro deste peito é amador.

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sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Fuga sem piano


N
ão sabia fazer coisa melhor na vida que fugir. Era a minha especialidade. O resto, ensaio.                                                                           
A primeira vez que quase completei uma fuga, deveria ter pouco mais de um ano de vida ainda. Após isso, só aperfeiçoei o crime. Contam em quase toda pequena reunião de Natal, que minha mãe lavava roupa no quintal, em frente à casa em que morávamos havia uma oficina mecânica, algumas casas de aparência desabitada, horizonte periférico e uma ponte. O chão de terra batida era tão seco que parecia areia. De uma outra oportunidade, minha madrinha havia me ensinado a jogar pedrinhas no rio que dava sentido a essa ponte, madrinha esta, que dividia comigo o nascimento sob a mesma lunática constelação avoada. Doida de pedra, pedra preciosa. Engatinhando resoluta, capacete de crochê branco e com o tão simples propósito de atirar pedrinhas na água, eu fui, sozinha e sem a mãe perceber, escrevendo com os joelhos na areia o restante dos meus anos. Desconfio do efeito em mim, das formas hipnóticas dos arcos aquáticos que engrandeciam e sumiam tão logo a pedrinha desaparecia na modesta profundidade daquelas águas. Minha mãe, pobre coitada, no trabalho pesado de esfregar e torcer as roupas, se distraiu o suficiente que era pouco. - Dona, Dona, sua filha está indo pra ponte! - era o moço da mecânica, apavorado. Corre corre e gritaria, eu já estava debruçada em meio pequeníssimo corpo para fora da ponte. Sem pedras. Uma mão firme e materna por debaixo de mim me alçou, nunca antes eu havia presenciado tanta gente junta e fiquei enjoada. Bendito moço da mecânica. Meu anjo da guarda ganhou o primeiro calo na asa.
Teve um guri na escola, ali eu já tinha uns 12 anos. Calado, sardento e bastante sozinho, talentoso em colorir os muros que cercavam a quadra de futebol. Quermesse da igreja e eu recebo um "correio elegante" dizendo: te espero perto da barraca "tal", um beijo, Daniel. Eu fugi para o outro lado, eu gostava dele, de um jeito parecido com o das cirandas nas águas, mas mais bonito. A gente aprende com a gritaria, que as coisas bonitas ferem. Ele não me procurou, como covarde eu esperava que fizesse, não era mesmo o seu estilo. Chorei o que pude na esquina da minha casa, o restante guardei. Primeira fuga concluída com sucesso, e eu já estava muito bem aparelhada para conceber Chopin.
Alguns anos mais e Chico Science morreu, ouvimos a notícia no rádio do boteco, jovem e brilhante, chorei no banheiro pra ninguém ver. Na parede, o sorriso dele no interruptor de energia. Fugi de lá.
Teve um cara depois, teve uma situação a seguir, outras coisas, todas acirandadas, cintilantes.
Volto pra casa e escrevo sobre tudo. Agarro o magnífico com todos os erres e esses, exclamações e olhares. E me dá mesmo a sensação de que nunca terminaram depois que eu saí.

Dzieje się.

domingo, 19 de novembro de 2017

O abraço







Hoje acordei tão sobrando 
que inventei abraços. 
Uma falta sua que sempre esteve aqui. 
E estas sobras todas 
que são excessos do que não te vivi.
Criei estradas e tantas asas,
que não fossem os pássaros tão ariscos,
as flores que te penso tão azuis,
ou teus olhos negríssimos;
teria eu ameaçado pouso
em tua pele colorida?






quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Sobre meninos



Há um único momento, talvez dois no máximo, dentro de uma vida inteira em que sentimos o flutuar dos próprios pés contra a nossa fragilidade de ser grande. Já não voamos mais. Tem esse garotinho sentado na calçada e que brinca sozinho, sua solidão é tão dedicada e mesmo assim, curiosa, me aproximo e o chamo de meu doce. Ele ergue a cabeça contendo dois grandes olhos brilhantes e castanhos desconcentrados em mim, e diz, com a voz propositadamente engrossada de homem: meu nome é Murilo. Porque há este outro grande momento em não ser de ninguém e que é dele. Entre os galhos e folhas secas de árvore, uma única flor amarela de Ipê comandava seu grande exército imaginário.



fotografia | Zi