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Aqui a poesia é amadora. A música e a fotografia, amadoras. Tudo dentro deste peito é amador.

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quinta-feira, 6 de abril de 2017

A ti











Pudesse ser que fosse apenas um outro dia em que um afunilado raio de luz se atreveu e nos alcançou tão longe que somos. E toda a mornidão que cobriu os nossos pés e avançou pelo nosso corpo nos amedrontando de claridade, fosse apenas uma gripe. Pois que não penso acordar os últimos pássaros que vieram e pousaram sempre tão breves. É dentro do teu abraço que o vento é mais mais forte e sem entrega. Meus cabelos caem voando e as asas dos pássaros desfiam azuis. Pudesse ser que eu imaginasse. Precisamente, amanhã acabou.






domingo, 5 de junho de 2016

é algo como isso e fim

Escrever é quase medo.
Não ficar.
Canto algum.
Um lugar. Lar. 
Pocilga.
Flor. 
Escrever é um não perdoar para perdoar. 
Um confronto. 
Faca. É o fundo.
Sofrer de cor, de palidez.
Absolvição. 
É um bode colorido. 
Perdoável.
È um bode. É Chagall. 
É para os grandes.
É a esquina, o boteco, chão, teto, é teto e chão.
É solitário.
Sagrado.
Não mete-se. 
É sério, piada.
É o copo. 
É a taça. 
O meio vazio.
É o cheio.
Escrever é depois. 
Não eu. 
É Machado.
É antes do possível.
A página no lixo embolada.
É o peito líquido.
Fatiado peito.
É a vela. A veia.
Alforria. 
Alegria. Embriaguez. 
É lama. 
Chão. 
É Dalí e Dumont.
As estrelas de Bilac.
É quase fim.
É quase.
E eu não gosto do som elétrico desta palavra.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Notícias amarelas, é maio ainda

Mari, 


quando as vi amarelas, tão rosas e escancaradas no jardim, lembrei do Chico e depois de você. “Era você além das outras três”. É como se fosse uma letra de Chico cantada pela Mercedes Sosa, sabe? Acho que acabei fazendo as pazes com a terra depois de tanto tempo sobrevoando. E este escândalo, talvez, foi a maneira que elas encontraram de me dizer que “tudo bem”. Andei errando a mão e o verbo, mas foi bom ter para onde voltar… Gracias. Dias desses meus pais estiveram aqui em casa. Pegamos nós três na lida da terra e depois de tudo muito limpo, meu pai sacudiu o tronco da primavera que ainda tinha muitas flores de cor maravilha prestes a se desprender e caíram na terra varrida. Minha mãe fez pose se açucareiro e riu da besteira que tinha explicação. “Agora ficou bonito”. Pensei em indicá-lo a um editor amigo meu, pela poesia improvisada. Ele “se sentiu”. Então eu percebi que de dark, maio não teve nada. Não é bonita a maneira como as pessoas inventam de consolar a gente? Meu pai é um capricorniano fazedor de contas assumido. E ele acabou por fazer poesia da mesma forma que conta piadas sem verificar se a gente está quase rindo, já rindo ou se vai rir. Pensei que ele ainda tinha algo a me ensinar. Ele riu de canto a canto. E fiquei mais feliz por ele ter ficado feliz, sem me dar conta, de momento, que ele pensou o mesmo. “O pai, às vezes, dá uma dentro, né fia?” Ô, Mari, me diz se a gente aguenta? A vida não é mesmo igualzinha como o Guimarães escreveu?
P.S.: Hoje é aniversário da Tallita. Fiz toda sorte de molecagem com ela e falei de você, que lembrou bem dela. Quando ela disser algo bonito, porque vai, eu te conto.




Fotografia | minha, do jardim limpo com flores de primavera caídas