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Aqui a poesia é amadora. A música e a fotografia, amadoras. Tudo dentro deste peito é amador.

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domingo, 19 de novembro de 2017

O abraço






Hoje acordei tão sobrando 
que inventei abraços. 
Mas te abracei.
Uma falta sua que sempre esteve aqui. 
Estas sobras todas 
que são excessos do que não te vivi.
Criei estradas e tantas asas,
que não fossem os pássaros tão ariscos,
as flores que te penso tão azuis,
ou teus olhos negríssimos;
teria eu ameaçado pouso
em tua pele colorida?







quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Sobre meninos



Há um único momento, talvez dois no máximo, dentro de uma vida inteira em que sentimos o flutuar dos próprios pés contra a nossa fragilidade de ser grande. Já não voamos mais. Tem esse garotinho sentado na calçada e que brinca sozinho, sua solidão é tão dedicada e mesmo assim, curiosa, me aproximo e o chamo de meu doce. Ele ergue a cabeça contendo dois grandes olhos brilhantes e castanhos desconcentrados em mim, e diz, com a voz propositadamente engrossada de homem: meu nome é Murilo. Porque há este outro grande momento em não ser de ninguém e que é dele. Entre os galhos e folhas secas de árvore, uma única flor amarela de Ipê comandava seu grande exército imaginário.



fotografia | Zi



quinta-feira, 6 de abril de 2017

A ti











Pudesse ser que fosse apenas um outro dia em que um afunilado raio de luz se atreveu e nos alcançou tão longe que somos. E toda a mornidão que cobriu os nossos pés e avançou pelo nosso corpo nos amedrontando de claridade, fosse apenas uma gripe. Pois que não penso acordar os últimos pássaros que vieram e pousaram sempre tão breves. É dentro do teu abraço que o vento é mais mais forte e sem entrega. Meus cabelos caem voando e as asas dos pássaros desfiam azuis. Pudesse ser que eu imaginasse. Precisamente, amanhã acabou.