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Aqui a poesia é amadora. A música e a fotografia, amadoras. Tudo dentro deste peito é amador.

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sábado, 19 de dezembro de 2015

Carta à Tallita Fluvial


Talls,



hoje quando acordei, tinha uma tirinha de sol escorrendo por uma fresta tão justa na janela que deu dó de não escancarar. Mas eu me aguentei. Era cedo demais pra acordar e tarde pra despertar. Deixei aquela tirinha brincar comigo um pouco na cama. Foi uma das primeiras vezes que acordei quieta. É. Eu acordo e já começo a pensar, fico na cama uns minutos até o mundo assentar de vez no que era sonho, mexendo no cabelo, cutucando a cutícula, criando uns filmes na cabeça. Mas dessa vez não, fiquei quieta. Era tão bonita aquela tirinha dourada tremulando vagarosa no lençol, nos pés, no joelho, que eu aquietei. Foi um único momento de genuína paz em meses. Aquele pequeno corredorzinho purpurinado. Essa cidade é hard core demais. As pessoas já não tem mais árvore dentro de si. Acabou. Esses dias assisti Boyhood. Deveria ter visto antes. Sério. Em um momento é discutida a existência da dimensão intermediária. Eu falo com alguém que ao mesmo tempo me “ouve” e checa suas mensagens no celular, e em todas as possibilidades onde hoje é possível receber uma mensagem. Me ouve e lê, me ouve e lê. No final das contas ele não sabe dizer de nós, nem de mim e nem da outra pessoa, porque não estava presente com nenhuma das duas, efetivamente. E é triste não conhecer uma pessoa que te quer bem. Precisei deixar algumas destas pessoas para trás, Talls. É doloroso, mas eu não poderia servir a este propósito. Você entende. A poesia do mundo já está quase acabando. É preciso mesmo fazer o caminho contrário como o mocinho do filme fez, ir de encontro a arte dele, sair da dimensão intermediária. E não faz mal se a gente se entregar às vezes. Reavivar, todos os dias, a graça contida nas coisas é árduo bem como sublime, igualmente.

Ganhei muitos livros neste aniversário. Até um Neruda enorme! Fiquei exclamada. O costume de presentear está se esvaindo como a poesia. Cada vez que, raramente, ganho alguma coisa, me lembro de você. Que bondade! Que doçura nas mãos. A fazedora mais doce de embrulhos e objetos de adoração! Estou lendo, de um dos livros ganhados, um conto de Rachel de Queiroz chamado Tangerine-Girl. Não é bonito este título? Quis ouvir Tangerine do Led Zeppelin imediatamente, o conto é lindo. Vou transcrevê-lo pra você.



Me mande sempre notícias, tá bem? Recolha-se à sua concha quando preciso, porque eu sei que é preciso, você é uma pérola! Mas não desapareça. Sua poesia areja o sufoco cinza que paira sobre essa cidade. E não se esqueça, o caos é fora, é fora, é fora. Um dia a gente se vê por aí, nem que seja no meio do caminho. Nem que o meio do caminho seja a Itália, seja Portugal ou Piraporinha do Bom Jesus.


             


              Feliz Natal.

Feliz 2016.

Tudo vai dar pé.



Te amo.


Zi



domingo, 22 de novembro de 2015

Bar

(...)

Pude ouvir todos os passos no piso amadeirado daquele lugar. Pegadas apressadas, conformadas, nervosas, salto, bota. Escorregões. Desmaios. Desfalecimentos. Alegrias. Esbarrões marcados nas paredes, se desfazendo cansadas nas pontas dos meus cotovelos. Todos os corações. Batendo, tanto. Tantos poemas... Tantas pessoas… E, tanta fumaça que, meus passos se esqueceram das próprias pegadas. Alguns cento e cinquenta e sete anos contados em metros, de um silêncio que se abria em agressiva cintilação. Nos espelhos, portas e balões de ar, ele esperava que ela o amasse, ela esperava que ele a amasse. Uma outra. Um outro. Qualquer outro amor esperando o amor de quem estava à espera... Feridos. Escombros. Quem se encontrou. Nenhuma vítima. Coloco as mãos no bolso do casaco. É embaraçoso sentir tanto. 











quinta-feira, 19 de novembro de 2015

O fim


(...)

Fisicamente covarde, não havia indícios de que mudaria a cor dos cabelos ou amputasse o alongado dos fios, como se precisasse, sempre e imaginariamente, desembaraçar a tudo. E desembaraçou-o, o homem, como quem salva um pássaro da linha cortante e imaginária de uma pipa criada para a liberdade do vento e as possibilidades do céu.






A ilustração acima é do mágico Troche.

sábado, 24 de outubro de 2015

Não se aprende a "adoecer" assim.



Sinto. Sentir. Sentimento.
Apalpo o imaginado, como contorno sem um meio. Basta?
Abasta.
Quem poderia dizer a não ser eu?
Quem poderia?
Quem?
Se na poesia, que tem você a ver com o fato de que te amo e você não me ama?

Nada.


" Neste ponto, eu sentei na parede, eu... Eu sentei no chão e escutei, foi tudo o que eu fiz, só escutei: 
- Não seja tão insensível.

Eu nunca, nunca fui tão insultado, tão insultado em toda a minha vida, em toda minha vida."
"

Trecho do livro em composição, por um esquizofrênico.
Filme: Maladies
Diretor: Carter




quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Carta a um infinito


Escrevo para entender. Se soubesse, cantaria. Meu peito está blindado e poucas coisas atravessam.
Tanto tempo já se passou, não saberia contar, e aquilo que eu senti ainda não encontrou a estrada de ida. Paira. Só paira. Emma Morley, personagem de Anne Hathaway no filme One Day, decretou a frase de uma vida: “Eu ainda te amo, só não gosto mais de você”. Disto é feita uma blindagem. O morníssimo narcótico do esquecimento. Passo pelas cenas do filme e sinto frio por dentro, é o vento gelado que antecede a esperança, geralmente é assim quando ela volta. Não mais. Emma, pacientemente, o espera. Não sem sofrimento e outras paixões. É como se ela aguardasse, inconscientemente, pelo momento em que ele estará maduro para amar de verdade. E ele é transformado. Por ela, pelo amor por ela. E ele foi um idiota por todo o tempo disponível, possível e como se não houvesse escolha. Não vou contar o final, é lancinantemente lindo.

A arte imita a vida. Não tem fim. Colidi. Mas estou viva. Talvez tenha sido mais fácil, ferida, deixar de querê-lo. Acho que nunca saberei o que se passa com ele. Eu jamais tive a menor chance de conseguir. É possível que nunca procure. Uma espécie de dor se esconde, posso sentir sua respiração encolhida em algum canto em mim, mas não sinto vontade de fechar as cortinas e voltar a dormir para abraça-la. E já não sei chorar. Só não sabia por onde começar a deixá-lo. Talvez por aqui.  

            Então, preparo uma página inteira para uma despedida em que ele não vai estar. Me sinto quase morta por alguns segundos. E se me demoro, é sempre como forma de adiamento. Ouço todas as nossas músicas, não choro. Nem em homenagem ao que não foi, consigo. Esses pássaros feridos nos causando dor de insuficiência. Quando nos deixarão partir sem deixar para traz alguma culpa?

Como esperado, me apaixono novamente e não por ele como de costume. Já estou nos braços de outro. Não houve exatamente nada que eu pudesse fazer para impedir. Eu não tenho grades. Está terminado e nada do que ele faça me fará desistir da desistência. Embora saibamos que ele não fará nada. 

Mentiria se dissesse que não dói não sentir sua falta, mas não dói não lembrar que poderia ser ele. Meu coração está entusiasmado. Então o coloco estendido sobre algumas linhas cuidadosamente compostas sem muita poesia, e espero que ele durma tranquilo, refeito e bondoso como nunca. E como se o filme tivesse, enfim, terminado bem, e só as sombras permanecido atrás de um poderoso sol que me ilumina inteira, fico cinza como sobrei depois dele, as nuvens estão carregadas, mas é verão.

Não me lembro mais do seu sorriso. Não possuo mais nada a este respeito. Nem mesmo a coleção de recifes que costumava admirar no fundo de seus olhos oceânicos. Boba, sinto uma quase angústia. Ninguém deveria ser esquecido. São outros olhos agora, outras lindas cadeias montanhosas de difícil acesso, onde não é preciso escalar. Esperanças novas não doem. 

Um sentimento quase desumano me toma, sinto vontade de convidá-lo a partir comigo nesta aventura onde ele não cabe, como num novo filme, quem sabe, para testemunhar a ineficiência do medo. Ainda me preocupo. Somos todos inocentes e amar, amar mesmo, não dói.


 Just breathe... Just Breath. Just...  Esta era a música que deveria ter tocado quando nos conhecemos.



              Cuidemo-nos. Gentilmente. Cuidemo-nos.


quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Nota de aclaramento


Oi, gente! Como vão? (Deixem-me notícias nos comentários) *.*


Estou bastante afastada, eu sei. A vida andou me apressando, são poucas as novidades escritas desde a última vez que estive aqui. Mas há planos, é preciso também que eu respeite o sacro silêncio das inspirações para retornar com boas novas escritas. 

Também estou trabalhando bastante na A Letra, que acho que nem cheguei a mencionar por aqui. Me visitem de vez em quando. E se eu puder ser útil, ficarei imensamente feliz.


Um beijo de saudades, até mais ler.



sábado, 23 de maio de 2015

O cão guia perseverante de baixo custo

Plantão extraordinário

Lado a lado na calçada, o vira-latas descabeladinho lhe sorri com os olhos negros e abana o rabo euforicamente, como se ambos estivessem a caminho de um rodízio de carnes, presença esta que o bêbado, obviamente, não percebe. Dá alguns passinhos sóbrios para frente e olha para o dito, como quem diz - podemos ir. Nada. Abre o farol, fecha o farol, nova tentativa. Nada. 
E começa a latição. 
Até os cães têm mais o que fazer, faça-me o favor! Nada. Latidos, linguão de fora, corridinhas até o meio da rua demostrando que dava pra ir, alguns pulos, saltos, duplos twist carpados, tango... Nada, nada, nada. O bêbado desiste e senta no meio-fio.

Moral da história: a natureza nos ensina os caminhos todos os dias, mas estamos bêbados demais para enxergar.






quarta-feira, 20 de maio de 2015

Sobre ir

Levanto a cabeça estranhando o mundo. Se um sentimento me veste justo é a saudade. Me despeço, um beijo no rosto e me inundo de falta. 

- Mas já? 
- Sempre.






quinta-feira, 7 de maio de 2015

Caminho


Leveza é quando nossa alma não espanta mais os passarinhos. 





domingo, 15 de março de 2015

Em março com um abraço


São cinco horas. Tarde de sábado. Há qualquer coisa de encanto.

O sol teima já longe das nuvens alaranjadas, mas posso ver o cinza que vem do norte, é chuva. E é tão bonito que quase abandono o leito chão morno para me levantar e aplaudir. Soube que fazem isso em alguns lugares, me dá vontade de conhecer todas essas pessoas. Mas me lembrei de você, Mariana, Maria, Ana ou tudo. No varal algumas saias dançam, o gato na janela, cheira o vento que lhe chega ao bigode. O cão esbarra na hortelã e me olha tão longo... Penso sobre a sorte enquanto afundo na terra, com delicadeza, uma raiz solitária. Cubro-a com terra. Como você me cobriu. Minha raizinha. Só então entendo tudo. No seu quintal uma flor se transforma, eu penso nela e meu mês de março se torna uma vida toda.

Na rua uma criança grita animada: Vai chover!

É a primeira vez que sorrio com o corpo todo. A alegria é mesmo boba, não teria sentido se não fosse. A gente cresce demais. Quero a curiosidade infantil das borboletas.

“Sorte é isto, merecer e ter.” Abraço Guimarães antes de começar a te escrever. E chove. Tento não incomodar as gotas com a lágrima que meu sorriso recolhe.
Não sei falar destas coisas como os dignos de cadeira.

Flor. E a palavra desabrochou enquanto eu escrevia.

Alma, mar, cintilar... Azul, pássaro, voar. Abraço, março.  Sorte, benção, gratidão. Amar. Já não sei falar. “Sou livre para o desfrute das aves”. Amém, Manoel. Obrigada, Mari-ama.




E para acompanhar esta macro amadora, uma canção. Com o perdão do trocadilho sonoro, não consegui evitar. Formi, formi, formi, formi, formidable! rs.